Jayme Buarque, do INEE: Etanol, o incompreendido

A história do uso do etanol sofre avanços e recuos e é mal compreendida desde que o homem aprendeu a produzi-lo há 10 mil anos. Hoje é mais lembrado pelos malefícios associados às bebidas. Até o século XVIII, quando a água das cidades sem esgoto era poluída, a hidratação das pessoas era feita bebendo vinho e cerveja, pois o etanol da bebida elimina as bactérias. O etanol permitiu, assim, a convivência urbana, base para a evolução das sociedades modernas.

O etanol foi o propelente dos foguetes V2, na segunda guerra, e dos foguetes que colocaram em órbita os primeiros satélites norte-americanos nos anos 60. Foi trocado por produtos como a hidrazina, bem mais cara, tóxica, corrosiva, e de difícil manuseio. Passado meio século as agências espaciais do Brasil e da Alemanha anunciam que testaram, com sucesso, motores a etanol para veículos espaciais modernos. O etanol, que continua sendo exatamente o mesmo produto, é redescoberto por ser eficaz, de fácil manuseio e baixo custo e que, além de tudo, é renovável!

A história do uso veicular do etanol é outro exemplo. Nos EUA era usado no começo do século XX, mas perdeu a competição para a gasolina porque, devido ao seu uso como bebida, era taxado. Nos anos 20, voltou a ser usado como aditivo da gasolina para aumentar a octanagem e permitir o uso de motores mais eficientes. Perdeu a disputa para o chumbo tetraetila, dentre outras razões, porque naquela época da Lei Seca se considerou que os hábitos de temperança impostos à população deviam ser estendidos aos automóveis. Essa opção foi um dos capítulos negros da saúde pública dos EUA, pois continuou a ser usado mesmo depois de constatado que o chumbo emitido se acumula no organismo, causando sérios problemas de saúde para a população.

Passados sessenta anos, a “Lei do Ar Limpo”, obrigou o uso do etanol que além de aumentar a octanagem, reduz a emissão de CO2 e a poluição local. Incentivou, ainda, a criação de carros flex. Para tanto, além de um incentivo fiscal estabeleceu que sua emissão é zerada. Como o total das emissões dos carros novos da montadora tem um limite máximo, a venda de um flex compensa a venda de um modelo poluente. Hoje circulam 20 milhões de carros flex nos EUA, mas a intenção de incentivar o uso do etanol frustrou-se, pois 1% dos proprietários de flex optam por usar apenas etanol. Por esta razão, os motores flex são na verdade motores a gasolina que, graças aos ajustes eletrônicos, conseguem usar etanol com uma eficiência abaixo da potencial, sacrificando sua autonomia.

A história do uso do etanol no Brasil é também pouco linear. Foi usado como aditivo da gasolina desde 1935, porém o poluente chumbo tetraetila foi usado até 1989. Para mitigar os efeitos da crise do petróleo, o governo estimulou a produção de carros puramente a etanol no final dos anos 70. Mais eficientes que os equivalentes a gasolina, com menos emissões e prolongando a vida dos motores, sua produção foi um sucesso, pois as montadoras, rapidamente, resolveram problemas, tais como, a partida a frio e a corrosão de peças. Os carros a etanol atingiram, na época, 90% das vendas de carros novos.

Leia a íntegra do artigo Etanol,o incompreendido.

Jayme Buarque é diretor geral do INEE e Gerente do Projeto Etanol Eficiente
05/09/2017


[Fonte: INEE]


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