Jayme Buarque, do INEE: Por um uso mais verde do etanol

Quando o preço do petróleo quadruplicou no início do século, a demanda por carros a etanol aumentou muito no Brasil, pois o combustível renovável ficou bem mais competitivo que a gasolina.

Para atender essa demanda, as montadoras, no lugar de aperfeiçoar o carro a etanol, optaram por oferecer carros flex que usam tanto gasolina quanto etanol.

Essa tecnologia foi criada nos EUA incentivada pela “Lei do Ar Limpo (1992)” para substituir gasolina por etanol, certamente inspirada pelos milhões de carros a etanol que circulavam no Brasil com bom desempenho e queda da poluição do ar de São Paulo. O uso automotivo do etanol não era uma novidade naquele país, pois era o combustível preferido de Henry Ford.

No entanto, um motor flex adequado para usar gasolina tem um rendimento menor se usar etanol e vice-versa. As propriedades do etanol, no entanto, fazem com que sendo utilizado em motor adequado, apresente desempenho melhor do que um motor a gasolina equivalente. Por essa razão, os carros a etanol brasileiros eram 15% mais eficientes que os equivalentes a gasolina.

O lançamento do flex nos EUA precedeu a existência de uma rede de distribuição do etanol e os flex eram otimizados para usar gasolina. No Brasil, apesar da menor eficiência com etanol, o flex foi bem aceito, pois a relação de preços entre os combustíveis era muito favorável ao etanol. A possibilidade do proprietário escolher o combustível atende, também, a uma desconfiança generalizada de que o biocombustível seja uma alternativa de “segunda classe”. Além disso, até hoje existe a lenda urbana que a oferta de etanol pode escassear se o preço internacional do açúcar aumentar.

Ao longo dos quase vinte anos, porém, houve importantes mudanças:

  • com tecnologias modernas, o motor a etanol é mais eficiente, compacto e potente (substitui inclusive o motor diesel);
  • as restrições à poluição automotiva, tanto globais quanto locais, tornam-se muito mais restritivas;
  • o etanol combustível deixou de ser uma esquisitice brasileira, pois os EUA é hoje seu maior consumidor e, aos poucos, vai-se tornando uma “commodity”;
  • as emissões de um carro a etanol otimizado no Brasil, onde o etanol é renovável, são menores que as de um carro elétrico a bateria equivalente.

    Vivemos hoje no Brasil um impasse pelo qual, por desconhecimento e desinformação generalizados sobre as virtudes do etanol, não existe uma demanda por carros eficientes e as montadoras não oferecem esses carros. Como consequência, uns cinco milhões de motoristas que hoje só se abastecem com etanol, são prejudicados pela quilometragem aquém da potencial. Por razões óbvias, sofre também o meio ambiente.

    A boa notícia é que esse impasse se baseia em imperfeições de mercado que podem cair por terra a qualquer momento. Basta que uma primeira montadora atenta ofereça um modelo a etanol otimizado para o nada desprezível mercado de motoristas que só usam etanol. A julgar pelo que aconteceu no PROALCOL, a transformação vai ser muito rápida.

    Será uma nova revolução verde do etanol automotivo.

    Jayme Buarque é diretor geral do INEE

    05/01/2019

  • [Fonte: INEE]


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